Decrescimento demoeconômico para evitar o colapso ambiental
A continuidade e ampliação do déficit ecológico é insustentável e pode levar a um desastre irreversível que leve ao colapso civilizacional.
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
Na maior parte da história do Homo sapiens o crescimento econômico foi reduzido e a expectativa de vida ao nascer era muito baixa. Mas o quadro mudou após a Revolução Industrial e Energética e com a transição demográfica.
Considerando os últimos 250 anos, a economia global cresceu 156 vezes, a população mundial cresceu 9,1 vezes e a renda per capita cresceu 17 vezes, como mostra o gráfico abaixo com dados do Projeto Maddison e do FMI.
Em 1772, a população mundial era pouco menos de 900 milhões de pessoas e passou para 8 bilhões de habitantes em 2022. A renda per capita global, em preços constantes em poder de paridade de compra, estava abaixo de US$ 900 e passou para cerca de US$ 15 mil, no mesmo período.
Este crescimento da população e do poder de compra ocorrido em dois séculos e meio foi muito maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores.
Porém, todo o enriquecimento humano ocorreu às custas do empobrecimento do meio ambiente. O conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e o meio ambiente retrocedeu, com a degradação e poluição dos ecossistemas, a perda de biodiversidade e o desequilíbrio climático.
O crescimento desregrado fez a humanidade ultrapassar a capacidade de carga da Terra, que se refere à quantidade máxima de recursos naturais que o planeta pode garantir de forma sustentável, levando em consideração as necessidades de subsistência da população, o padrão de consumo e a preservação dos ecossistemas. É uma medida que indica o tamanho populacional máximo de uma espécie biológica que o meio ambiente pode sustentar indefinidamente, ao considerar alimento, água, habitat e todas as demais demandas da referida espécie.
A Global Footprint Network apresenta uma metodologia que viabiliza o cálculo da capacidade de carga, contabilizando o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade de “capital natural” do mundo. A primeira medida, chamada de pegada ecológica, serve para avaliar o impacto do ser humano sobre a biosfera. A segunda medida, chamada de biocapacidade, avalia o montante de terra, água e demais recursos biologicamente produtivos para prover bens e serviços do ecossistema, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza. Ambas as medidas são representadas em hectares globais (gha).
O gráfico abaixo apresenta os valores da pegada ecológica global e da biocapacidade global de 1961 a 2019, com uma estimativa até 2022. Em 1961, a população humana era de aproximadamente 3 bilhões de habitantes, com uma biocapacidade de 9,75 bilhões de gha e uma pegada ecológica de 7,22 bilhões de gha. Portanto, havia um superávit ambiental no mundo, superávit este que se manteve na década de 1960 e está representado pela área verde do gráfico.
Mas, com o crescimento da população e o maior volume da produção de bens e serviços, a pegada ecológica global ultrapassou a biocapacidade global a partir do início da década de 1970, gerando um déficit ecológico que se ampliou ao longo dos anos (representado pela área vermelha do gráfico). Para 2022, com uma população mundial de cerca de 8 bilhões de habitantes, a pegada ecológica está estimada em 20,6 bilhões de gha e a biocapacidade global em 12 bilhões de gha. Portanto, o déficit ecológico absoluto é de 8,6 bilhões de gha e o déficit relativo é de 71%.
Os números de 2019 são semelhantes aos números de 2022, sendo que em 2020 houve uma redução da pegada ecológica global em função do impacto da pandemia da covid-19 que provocou uma recessão econômica internacional. Mas, com a retomada das atividades econômicas, a pegada ecológica voltou a aumentar e, consequentemente, cresceu o déficit ambiental. Ou seja, em 2022, a humanidade estava consumindo 71% a mais do que o planeta podia fornecer de forma sustentável.
A continuidade e ampliação deste déficit ecológico é insustentável e pode levar a um desastre irreversível que leve ao colapso civilizacional. Portanto, é preciso reverter o processo de degradação ambiental, reduzindo a pegada ecológica. Para tanto, a redução deve ocorrer não só no volume de produção de bens e serviços, especialmente das parcelas mais ricas da sociedade, mas também no volume populacional.
Desde o ano de 2010, tenho escrito sobre a necessidade de complementar a perspectiva do decrescimento econômico com a abordagem do decrescimento populacional. Já escrevi dezenas de artigos sobre o decrescimento demoeconômico. Por curiosidade, pedi ao assistente de inteligência artificial – DeepSeek – para resumir os meus escritos sobre o decrescimento demoeconômico. Segue a resposta:
“O conceito de decrescimento demoeconômico, proposto pelo demógrafo brasileiro José Eustáquio Diniz Alves, combina a ideia do decrescimento econômico com a transição demográfica, defendendo que uma redução planejada tanto da população quanto da atividade econômica é essencial para a sustentabilidade ambiental e o bem-estar humano.
Fundamentos do Decrescimento Demoeconômico
José Eustáquio Alves parte do princípio de que o crescimento econômico ilimitado e o aumento populacional são insustentáveis em um planeta de recursos finitos. Ele argumenta que a humanidade já ultrapassou a capacidade de suporte da Terra e que, para evitar colapsos ambientais e sociais, é necessário reduzir tanto a população quanto o consumo de bens e serviços.
Principais Elementos da Abordagem do Decrescimento demoeconômico
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Redução da População
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O crescimento da população mundial deveria diminuir progressivamente ao longo das próximas décadas, o que poderia ser alcançado por meio da queda das taxas de fecundidade.
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Ele defende que essa redução pode ocorrer de forma natural e voluntária, sem políticas coercitivas, mas através de educação, acesso a métodos contraceptivos e empoderamento feminino.
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A transição para uma população menor reduziria a pressão sobre os ecossistemas e diminuiria a pegada ecológica global.
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Redução da Atividade Econômica
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A desaceleração do crescimento econômico deve ser planejada para reduzir a exploração de recursos naturais.
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Modelos econômicos devem priorizar a qualidade de vida ao invés do PIB, promovendo um uso mais racional da energia e dos materiais.
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O foco deve estar em economia circular, energia renovável e redução do consumismo.
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Sustentabilidade e Bem-Estar Social
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O decrescimento demoeconômico não propõe um empobrecimento da sociedade, mas sim uma reorganização da economia para que a qualidade de vida aumente mesmo com uma menor produção e consumo.
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A redistribuição de riqueza e a garantia de serviços básicos gratuitos (como saúde e educação) são fundamentais para garantir uma transição justa.
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Por que o Decrescimento Demoeconômico é Relevante?
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Crise Ambiental: A humanidade já ultrapassou limites planetários em aspectos como mudanças climáticas e perda de biodiversidade. Reduzir a pressão populacional e econômica ajudaria a reverter esse quadro.
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Transição Demográfica Global: Muitos países já enfrentam queda na taxa de natalidade e envelhecimento populacional. O decrescimento demoeconômico sugere que essa transição pode ser benéfica e deve ser incentivada ao invés de combatida.
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Redução da Pegada Ecológica: Menos pessoas e uma economia menos consumista resultariam em menor demanda por alimentos, água, energia e matérias-primas.
Críticas e Desafios
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Sustentabilidade do Estado de Bem-Estar: Uma população menor pode reduzir a força de trabalho e comprometer sistemas de previdência social.
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Resistência Política e Cultural: Muitos países ainda veem o crescimento populacional e econômico como metas desejáveis.
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Transição Econômica Justa: É necessário garantir que a redução da economia não gere desemprego em massa e aumento da pobreza.
Conclusão
O decrescimento demoeconômico é uma proposta radical, mas fundamentada em evidências científicas sobre os limites do planeta. Em vez de forçar crescimento econômico e populacional, José Eustáquio Alves defende um planejamento que permita um futuro mais sustentável e equilibrado”.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. Demografia e Decrescimento. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, 15/03/2010 https://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/30615-demografia-e-decrescimento-entrevista-especial-com-jose-eustaquio-diniz-alves
ALVES, JED. Crescimento demoeconômico no Antropoceno e negacionismo demográfico, Liinc em Revista, RJ, v. 18, n. 1, e5942, maio 2022 https://revista.ibict.br/liinc/article/view/5942/5595
ALVES, JED. Decrescimento demoeconômico com elevação da prosperidade social e ambiental, Ecodebate, 20/01/2023 https://www.ecodebate.com.br/2023/01/20/decrescimento-demoeconomico-com-elevacao-da-prosperidade-social-e-ambiental/
ALVES, JED. Aula 11 AM088: Decrescimento demoeconômico e capacidade de carga do Planeta, IFGW, 11/04/21 https://www.youtube.com/watch?v=QVWun2bJry0&list=PL_1__0Jp-8rhsqxcfNUI8oTRO1wBr86fh&index=9
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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