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Artigo

Crise climática global pode provocar retração econômica e grande mortalidade

 

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A crise climática pode reduzir o PIB global em cerca de 50% até 2090, além de provocar uma mortalidade em massa em decorrência dos efeitos do aquecimento global, como incêndios, secas, onda letais de calor, colapso dos ecossistemas e enchentes provocadas pelas tempestades e pela elevação do nível do mar.

O alerta veio de um novo relatório de especialistas em gestão de risco do Institute and Faculty of Actuaries (IFoA) que eleva significativamente a estimativa de risco para a economia global, para a saúde da população mundial e para a sobrevivência das espécies e a biodiversidade.

O relatório “Planetary Solvency – finding our balance with nature” foi publicado depois que a Organização Meteorológica Mundial mostrou que os últimos 10 anos foram os mais quentes do Holoceno e que os últimos 2 anos (2023 e 2024) tiveram as temperaturas mais altas dos últimos 125 mil anos. Além disto, os climatologistas mostram que existe um processo de aceleração do aquecimento global, potencializando as condições climáticas extremas.

Neste sentido, o relatório afirma que as avaliações de risco climático usadas por instituições financeiras, políticos e funcionários públicos para avaliar os efeitos econômicos do aquecimento global estavam erradas, porque ignoraram os efeitos severos esperados das mudanças climáticas, como pontos de inflexão, aumento da temperatura do mar, migração e conflito como resultado do aquecimento global.

Segundo o relatório, o risco de insolvência planetária se aproxima, a menos que ajamos decisivamente. Sem uma ação política imediata para mudar o curso, impactos catastróficos ou extremos são eminentemente plausíveis, o que pode ameaçar a prosperidade futura. Observações críticas:

• Nossa sociedade e economia dependem fundamentalmente do sistema da Terra, que fornece itens essenciais como comida, água, energia e matérias-primas.

• Esses serviços ecossistêmicos, incluindo a regulação climática, não são substituíveis, o que significa que devem ser protegidos, pois não podem ser substituídos por tecnologia quando se forem.

• Isso significa que o desenvolvimento social, o bem-estar, a prosperidade e a saúde econômica estão interligados e dependentes do sistema da Terra.

• Precisamos reconhecer essa dependência e gerenciar nossa atividade para estar dentro dos limites planetários.

• Uma resposta política urgente é necessária para atingir isso pois nossa atual abordagem liderada pelo mercado para mitigar riscos climáticos e naturais não está dando resultado.

• Os impactos já são severos com incêndios, inundações, ondas de calor, tempestades e secas sem precedentes.

• Corremos o risco de desencadear pontos de inflexão, como o derretimento da camada de gelo da Groenlândia, perda de recifes de corais, morte da floresta amazônica e grande interrupção das correntes oceânicas.

• Os pontos de inflexão podem desencadear uns aos outros, causando um efeito dominó ou cascata de danos acelerados e incontroláveis.

• Se vários pontos de inflexão forem acionados, pode haver um ponto sem retorno, após o qual pode ser impossível estabilizar o clima.

Nota-se que no cenário extremo (acima de 3ºC) a mortalidade humana pode chegar a 2 bilhões de óbitos e no cenário catastrófico pode chegar a 4 bilhões de óbitos. Isto provocaria uma grande redução da expectativa de vida, com impactos negativos sobre os indivíduos, as famílias, a sociedade e a economia.

A tabela abaixo mostra o impacto do risco de Solvência Planetária e a matriz de probabilidade utilizada para os resultados ilustrativos da Solvência Planetária contidos nas seções anteriores do relatório.

impacto do risco de Solvência Planetária e a matriz de probabilidade utilizada para os resultados ilustrativos da Solvência Planetária

Um outro artigo “The macroeconomic impact of climate change: global vs. local” dos autores Adrien Bilal e Diego R. Känzig (NBER, 24/03/2025) também estima as perdas provocadas pelas mudanças climáticas. Segundo os autores: “Este artigo estima que os danos macroeconômicos das mudanças climáticas são seis vezes maiores do que se pensava anteriormente. Explorando a variabilidade natural da temperatura global, descobrimos que o aquecimento de 1ºC reduz o PIB mundial em 12%. A temperatura global se correlaciona fortemente com eventos climáticos extremos, diferentemente da temperatura em nível de país usada em trabalhos anteriores, explicando nossa estimativa maior. Usamos essa evidência para estimar funções de dano em um modelo de crescimento neoclássico. O aquecimento do tipo business-as-usual implica uma perda de bem-estar atual de 25% e um Custo Social do Carbono de US$ 1.367 por tonelada. Esses impactos sugerem que a política unilateral de descarbonização é econômica para grandes países como os Estados Unidos”.

De fato, se a crise climática não for controlada, seus efeitos podem se tornar catastróficos, incluindo perda da capacidade de cultivar grandes culturas básicas, elevação do nível do mar em vários metros, padrões climáticos alterados e uma aceleração adicional do aquecimento global.

Enquanto isto, as políticas do presidente dos EUA, Donald Trump, incentivam a exploração de combustíveis fósseis e o aumento dos gastos militares e de destruição em todo o mundo.

A crise econômica, o negacionismo climático e o aumento da mortalidade passam a ser uma ameaça existencial ao progresso da civilização humana.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

Ajay Gambhir et al. Planetary Solvency – finding our balance with nature. Global risk management for human prosperity, IFoA, January 2025

https://actuaries.org.uk/document-library/thought-leadership/thought-leadership-campaigns/climate-papers/planetary-solvency-finding-our-balance-with-nature/

Adrien Bilal and Diego R. Känzig. The macroeconomic impact of climate change: global vs. local temperature, NBER, Working Paper 32450, 24/03/2025 http://www.nber.org/papers/w32450

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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