Do saquê ao etanol: Japão tenta uma nova fonte de biocombustível
Durante décadas, Yasuji Tsukada cultivou meticulosamente arroz de alta qualidade, destinado aos exigentes consumidores japoneses. Agora, o agricultor de 60 anos enfrenta um novo desafio: cultivar um novo tipo de arroz e gastar o mínimo possível em dinheiro e mão-de-obra, ignorando o sabor e a aparência.
Tsukada é um dos 360 produtores desta área central do Japão famosa pelos arrozais que estão na vanguarda de um esforço para desenvolver um novo tipo de biocombustível. Com alguma ajuda financeira do governo, um grupo de cooperativas agrícolas do país começou no ano passado um projeto para transformar arroz em álcool. As cooperativas solicitaram a produtores como Tsukada que começassem a cultivar um arroz barato, de maior produtividade, para ser processado naquela que pode ser a primeira usina de etanol de arroz do mundo, a ser inaugurada no ano que vem. O grupo espera que a usina experimental – que tem metade do custo coberta pelo governo – ajude a determinar se o álcool combustível de arroz é viável técnica e financeiramente. Por Yuka Hayashi, The Wall Street Journal, de Niigata, Japão, no Valor Econômico, 26/06/2008.
No ilha de Hokkaido, no norte do país, a Oenon Holdings Inc., uma fabricante de bebidas alcoólicas que começou como produtora de saquê, está construindo outra usina de etanol de arroz, também com assistência do governo. A tecnologia necessária para transformar arroz em álcool combustível é bastante parecida com a usada para fazer saquê. Um porta-voz da Oenon diz que a empresa quer verificar nos próximos cinco anos se o projeto pode ser lucrativo.
Por ora, o custo do cultivo de arroz é alto demais para tornar o etanol de arroz comercialmente compensador para os agricultores, a não ser que o governo aumente os subsídios.
O petróleo supre 44% das necessidades energéticas totais do Japão, e quase todo ele é importado. Com a alta dos preços, o país está ansioso para diversificar suas fontes.
Embora o Japão importe a maior parte de suas matérias-primas e alimentos, é auto-suficiente em arroz e tem até um excedente. Uma mudança nos hábitos alimentares reduziu bastante o consumo de arroz nas últimas décadas, mas os subsídios do governo e a persistência dos agricultores manteve o cultivo popular. Os armazéns estão estufados de arroz e o campo é pontilhado por arrozais abandonados ou convertidos temporariamente para outras culturas, para impedir o excesso de produção.
“Temos a terra, as pessoas e a tecnologia para fazer isso acontecer no Japão”, diz Shigenori Morita, um professor de agricultura da Universidade de Tóquio. Ele estima que o Japão pode produzir até 10 bilhões de litros de etanol de arroz por ano – o equivalente a 1,7% de seu consumo de gasolina – com a plantação em arrozais ociosos. A produção inicial seria pequena. A nova usina de Niigata produzirá apenas 100.000 litros por ano. O álcool será misturado com a gasolina e vendido em postos de cooperativas locais.
Proponentes do experimento dizem que a produção em larga escala de combustível à base de arroz não elevará os preços, como em outros países que passaram a usar milho e cana-de-açúcar para produzir etanol.
Com o aumento da produção mundial de biocombustíveis – o crescimento anual é do equivalente a 300.000 barris de petróleo por dia -, pesquisadores estão procurando desenvolver combustíveis que usem plantas não-alimentícias, como o pinhão manso, para evitar novas altas dos alimentos. Mas como o arroz japonês é caro – resultado de altos custos de produção e controles de preço do governo – pouco é exportado e o mercado é basicamente isolado.
Morita diz que o arroz para biocombustível contribuiria para a segurança ambiental e de alimento do Japão ao acrescentar áreas verdes à paisagem rural e ajudar a manter arrozais em boas condições para possíveis reconversões futuras ao cultivo de arroz para alimentação.
Mas as mesmas coisas que moldam o mercado japonês de arroz – particularmente os altos custos e ineficiência – podem representar problemas para a produção de etanol em larga escala. A maioria das fazendas é de pequenas operações familiares com apenas alguns hectares de terra. Muitos arrozais são divididos em pequenos lotes ou distribuídos em terraços nas encostas de montanhas, o que torna a automação difícil.
Tsukada já havia parado de cultivar arroz para consumo em três de seus trinta hectares para se qualificar ao subsídio do governo. Ele tentou plantar soja, mas a terra é úmida demais e a qualidade e o tamanho dos grãos ficaram abaixo do satisfatório. Por isso, quando a cooperativa local sugeriu a plantação de arroz para álcool, no ano passado, ele abraçou a oportunidade.
Ele vendeu sua produção a 20 ienes (US$ 0,19) por quilo no ano passado, em comparação com 230 ienes para o arroz de consumo de alta qualidade. Isso paga apenas uma pequena porção de seus custos de produção. Por ora, incentivos temporários e subsídios cobrem parte do saldo, mas ele acha que ainda vai perder dinheiro.
“Não me importaria em continuar cultivando arroz biocombustível”, afirma. “Só gostaria que me pagassem mais.”